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Monday, April 30, 2018

A sede do silêncio, antónio ramos rosa

A sede do silêncio é um fruto do silêncio. 
A sede da palavra nasce da palavra que nasce do silêncio. 
A necessidade do silêncio é uma necessidade da palavra 
que (não) se perde na palavra. 
Distância, deserto, de árvore em árvore, 
a eterna sede, a sede do eterno, 
da frugal transparência do efémero. 
Terra, toda a distância da terra em cada sílaba, em cada vocábulo sem água. 
A página é deserto e caminho errante, obstinado. 
O horizonte do deserto anula a miragem, 
nega o imaginário. 
A sede da página é sede da ausência 
e sede da palavra do horizonte. 
A ausência é a segunda dimensão do dia, 
o outro lábio da terra, 
a verdadeira voz do vocábulo.




antónio ramos rosa
vagabundagem na poesia de antónio ramos rosa
seguido de uma antologia
casimiro de brito
quasi
2001

Friday, April 20, 2018

A Palavra, António Ramos Rosa

A Palavra

Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina 
e a alegria aviva-se em redonda ressonância. 
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível 
que reconhece e inventa a pluralidade delicada. 
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios. 

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo 
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova. 
Ela aflui em círculos desagregando, construindo. 
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua. 
Sobre si enrola o anel nupcial do universo. 

O gérmen amadurece no seu corpo nascente. 
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo. 
Move-se aqui e agora entre contornos vivos. 
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo. 
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde" 

A Festa do Silêncio, António Ramos Rosa

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde" 

Tuesday, December 12, 2017

No silêncio da terra, antónio ramos rosa

No silêncio da terra

No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no interior aberto.
Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido, silencioso umbigo
do ar.

Aí
o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.



antónio ramos rosa

Wednesday, December 16, 2015

Uma voz na pedra ,António Ramos Rosa

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

Amélia Muge - "Entre o deserto e o deserto" do álbum "Não sou daqui" (2007)



Entre o deserto e o deserto
numa viagem sem destino
procuras a água e o vinho
nenhuma pista nenhum signo

vivo de pouco ou de nada
sem nunca ter um lugar
sempre a insónia mais branca
e a sede de um novo ar

escurece já o olvido
e é noite quando amanhece
nenhum barco traz aquela
por quem a escrita se tece

talvez esteja perdido
como um náufrago na areia
talvez me reste a canção
e o vento que desenleia

Entre o deserto e o deserto
Entre o deserto e o deserto

Friday, October 23, 2015

A partir dos limites das palavras, António Ramos Rosa,

A partir dos limites das palavras

A partir dos limites
das palavras
das árvores
o amor das árvores
as frases do desejo
as sombras
brancas
de outras palavras
outras
outras palavras
brancas

o trajecto
mais breve
de uma sombra a outra
pode ser
outra sombra

A partir das palavras
e do amor das árvores

Quero ser outro e é outro que eu me vejo, António Ramos Rosa,

Quero ser outro e é outro que eu me vejo

Quero ser outro e é outro que eu me vejo
sentindo que sou eu sem saber quem sou eu
Escrever é sempre outra versão
de um texto que nunca se chegou a compor
Mas é igualmente a diversão
que nos faz vacilar entre o eu e um outro
sem necessitar de ser um ou outro

Há sempre quem procure saber quem é o autor de um texto
como para lhe pedir contas ou referências exactas
mas quem escreve desvia a trajectória paralela
para o ser que já sendo um outro
nunca o é o seu movimento para ele

Ninguém pode decidir Ele é um outro
porque ele é o processo de uma transformação
em que é uma invenção o reconhecimento
e que só é não sendo ou sendo um outro

Saturday, October 17, 2015

No Centro do mundo,António Ramos Rosa

No centro do mundo

Oscilante geometria tranquila
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo

Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura

Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues

Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade das ramagens crepitação de brasas

Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram

Estou dentro e fora na densidade subtil
Não ha aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é limpido e lê-se como um livro aberto

A Festa do Silêncio, António Ramos Rosa

A Festa do Silêncio
Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se de ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.
Volante Verde, 1986
António Ramos Rosa

Friday, May 29, 2015

A Festa do Silêncio,António Ramos Rosa

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

antónio ramos rosa , no centro da aparência

antónio ramos rosa / no centro da aparência



Repousa no espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.

Alguém compreende a sede de uma pedra!
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio
Nunca houve um encontro. Quando será o inicio?

Vejo a folhagem e os frutos da distancia.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.



antónio ramos rosa

...just stolen from ...
with joy

Tuesday, February 10, 2015

TREES , António Ramos Rosa: a very wonderful poem

TREES
What trees try to say
in their slow silence, their vague murmuring,
the sense they have, there where they are,
the reverence, the resonance, the transparency
and the bright and shadowy accents of an airy phrase.
And the shade and the leaves are the innocence of an idea
that between water and space turned itself to lithe integrity.
Beneath the magic breath of the light they are transparent boats.
I don’t know if it’s air or blood budding from their boughs.
I hear the finest foam of their green throats.
I am not, never will be, far from that pure water
and those ancient lamps of hidden isles.
What pure serenity of memory, what horizons
surrounding the silent well! It is a song in sleep
and the wind and light are the breath of a child
who upon a bough of a tree embraces the world.
ÁRVORES
O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

At times we grasp something, António Ramos Rosa

At times we grasp something
between shadow and shadow
And it’s as if a nuptial gesture deep within
had unfurled like yet another shadow
this one upright And then our breathing
is a flowing in oblivion and in the quiet that calms
as if the other in us were the same that began
And without figures we come into contact
with the ardent emptiness
that wraps all contraries in a silent affirmation
and consummates within us the magic obscurity
in which to be is as not being and not being to be



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Às vezes compreendemos algo
entre a sombra e a sombra
E é como se no íntimo um gesto nupcial
se desenrolasse como uma sombra ainda
mas vertical E então respirarmos
é fluir no olvido e no sossego que alisa
como se o outro em nós fosse o mesmo inicial
E sem figuras entramos em contacto
com o vazio ardente
que envolve todos os contrários numa afirmação silenciosa
e dentro de nós consuma a mágica obscuridade
em que ser é como não ser e não ser como ser

Não posso adiar o amor para outro século, António Ramos Rosa

I can’t put love off for another century
I can’t
although the cry is strangled in my throat
although hatred bursts, crackles, burns
beneath grizzled mountains
and grizzled mountains

I can’t put off this embrace
this two-edged sword
of love and hate

I can’t put off
although the night weighs centuries on my back
and indecisive daybreak still delays
I can’t put off my life for another century
nor my love
nor my cry of liberation

I can’t keep putting off my heart


____________________________

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


Sunday, November 2, 2014

ÁRVORES, A.R.Rosa


ÁRVORES
O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

A,R.Rosa, Apreender com s palavras...

Apreender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é uma poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a sua própria sede
Talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria

A.R.Rosa, Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa , Nada...

Nada é como se abrisse
ou cintilasse
com a brisa correndo na negrura
E não é uma cúpula
ou umas estrias
nocturnas
Porém há uma visão
quase
como uma haste tensa
que mal cintila
e é toda ela um surto
que se dissemina
dentro de si
E assim transmuta a sombra
com a sombra mesma
e por nós respira

A.R.Rosa